A Brazilian university entrepreneur (Port.)

Carlos Eduardo Rebello crebello at antares.com.br
Fri Dec 14 07:46:11 MST 2001


 Folha de S. Paulo - 12/12/2001

Um nome para o MEC: o reitor Uchôa

 ELIO GASPARI

 No reinado de um professor aposentado da Universidade de São
 Paulo (FFHH, R$ 5 mil por mês) e de um ex-reitor da Unicamp
 (Paulo Renato Souza, R$ 12 mil, em breve) a política de
 fortalecimento do ensino superior do governo conseguiu sua marca
 mais prodigiosa: levou um analfabeto para uma faculdade de
 direito. O programa "Fantástico" mostrou a história do padeiro
 Severino da Silva, de 27 anos, que sua reportagem inscreveu no
 vestibular da Universidade Estácio de Sá, no Rio. Ele marcou "A" e
 "B" alternadamente em todas as questões de múltipla escolha. A
 redação, entregou em branco.

 Quando Severino estava sendo examinado, o ministro da Educação
 dedicava-se a insultar os professores grevistas das universidades
 federais. Mais: tomou uma providência burocrática facilitando a
 criação de novas faculdades privadas.

 À primeira vista, o que há de absurdo na história da Universidade
 Estácio de Sá é que nela um analfabeto consegue ser selecionado
 para cursar sua faculdade de direito.

 À segunda vista, isso não tem a menor importância. Um governo
 valente venderia diplomas de advogado nas papelarias. Poderia
 vender também diplomas de jornalismo, administração, economia,
 marketing, história e sociologia. Quem estivesse interessado em
 aprender, iria para a universidade, já quem estivesse a fim de um
 diploma, passaria na papelaria. Em apenas três dos sete anos do
 mandarinato Cardoso-Souza, a Universidade Estácio de Sá passou
 de 23,6 mil alunos para 34 mil. Ultrapassou a Universidade Federal
 do Rio de Janeiro e tudo indica que antes da posse do novo
 presidente terá ultrapassado a USP.

 Graças ao repórter Antonio Gois, pode-se ouvir a douta palavra de
 seu reitor, João Uchôa Cavalcanti Neto. Bastam três pérolas:

 1) "As pesquisas não valem nada. A gente olha todo mundo
 fazendo tese, pesquisa e tal, mas não tem nenhuma sendo
 aproveitada. É uma inutilidade pomposa, é uma perda de tempo
 federal. As faculdades não fazem pesquisa porque não querem
 jogar dinheiro fora."

 2) "Estou interessado no Brasil? Não. Na cidadania? Também não.
 Na solidariedade? Também não. Estou interessado na Estácio de
 Sá... ....uma instituição que quer dar o melhor ensino possível às
 pessoas."

 3) "Se você chega ao Nordeste, em certas regiões, tem um menino
 trabalhando com 12 anos... ...aí vem o cara com a educação e diz
 que ele tem que ir para o colégio. Não tem que ir para o colégio,
 não. Ele pode não ir e estar muito bem."

 À primeira vista, quando o reitor da maior universidade de um país
 diz coisas assim algo de muito ruim está acontecendo.

 À segunda vista, o que o doutor Uchôa acha não tem a menor
 importância. Como não teria importância a opinião do dono da
 papelaria que viesse a vender diplomas de advogado. O padeiro
 Severino passou no vestibular da Estácio de Sá porque ela vende
 vagas para quem quiser comprá-las. Ela explicou que o padeiro foi
 o último colocado na prova, pois tirou nono lugar num exame onde
 havia 20 vagas e nove candidatos. Se King Kong fosse o décimo,
 também entraria.

 Noves fora as PUCs e a maioria das instituições comunitárias do
 Sul, o negócio de boa parte das universidades privadas é vender
 vagas e facilitar o acesso a diplomas. Nisso têm como cúmplice o
 tucanato do MEC. Gostam também de uma burla no cumprimento
 da lei que as desobriga de pagar ao INSS em troca de atividades
 filantrópicas. Nisso têm como cúmplice o pefelê do Ministério da
 Previdência. É mais fácil admitir que um analfabeto se forme em
 direito do que acreditar na história segundo a qual esses
 estabelecimentos são entidades sem resultados lucrativos.

 Em sete anos, o governo estimulou, até com financiamentos do
 BNDES, um inchaço dessa rede inferior de ensino. No varejo, elas
 iludem os alunos. No atacado, engordam as estatísticas do
 triunfalismo oficial. Um triunfalismo que se dedica a sucatear as
 universidades públicas e desmoralizar seus professores. Num
 procedimento inédito na história nacional, o governo associou-se
 às superstições produtivistas para tentar convencer os outros de
 que as universidades públicas são ocupadas por alunos
 privilegiados e mestres desocupados. Conseguiram fazer da
 Estácio de Sá a maior universidade do país.

 O professor Paulo Renato Souza deverá deixar o ministério no ano
 que vem, para disputar uma eleição qualquer. Será que ele seria
 capaz de dar a FFHH três boas razões para não colocar o reitor
 Uchôa Cavalcanti no seu lugar?




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