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Louis Proyect lnp3 at SPAMpanix.com
Sun May 6 11:50:32 MDT 2001


A very interesting though somewhat slanted comparison.

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PONTO DE VISTA Quarta-feira, 2 de maio de 2001

As comemorações do Primeiro de Maio

BAGATELAS

Em números absolutos, a Força Sindical alcançou a meta a que havia se
proposto de concentrar, na Praça Campo de Bagatelle, em São Paulo, mais
gente do que o presidente Fidel Castro, na Praça da Revolução, em Havana,
para comemorar o Dia dos Trabalhadores. A Força reuniu cerca de um milhão e
meio de pessoas, 15% da população de São Paulo. Já Fidel liderou uma marcha
de mais de um milhão de pessoas, quase a metade da população da capital
cubana. Mas a diferença entre as duas manifestações foi enorme.

A Força atraiu seu megapúblico com um show de Zezé di Camargo e Luciano
mais um sorteio de cinco apartamentos valendo R$ 42 mil cada um, e dez
carros Corsa Wind. O show e as prendas, avaliadas em R$ 1,8 milhão, foram
bancados por empresas como a Telefônica, a Brahma, a Caixa Econômica
Federal e a Embraer. A demonstração de que os presentes não estavam nem um
pouco interessados no significado político do Primeiro de Maio ficou
patente quando o secretário-geral da Confederação Internacional das
Organizações Sindicais Livres (Ciols), Bill Jordan, começou a discursar e
foi estridentemente vaiado.

Ao contrário do que ocorreu em São Paulo, em Havana, sem qualquer
distribuição de prêmios, o presidente Fidel Castro reeditou o tradicional
desfile do Primeiro de Maio, com mais de um milhão de pessoas e 1074
convidados de 60 países, desta vez para protestar contra a criação da
Associação de Livre Comércio das Américas (Alca). Discursando em frente ao
escritório de representação dos Estados Unidos, Fidel lançou a seguinte
consigna para os países latino-americanos: "Anexação, não, plebiscito,
sim". Fidel disse que, se passar, a formação da Alca levará esses países a
serem inexoravelmente anexados aos Estados Unidos. A América Latina,
afirmou, "se converterá numa enorme zona franca" e suas nações se verão
obrigadas a competir entre si. Em síntese, ao concordar com a criação da
Alca, os países latino-americanos estariam cometendo "um suicídio", alertou
o presidente cubano.

O protesto contra a Alca foi também um dos temas da manifestação de
Primeiro de Maio promovido pela CUT no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, e
que reuniu, segundo a Central, cerca de 60 mil pessoas. Mas os discursos
dos líderes que se revezaram no palanque, incluindo o presidente de honra
do PT, Luiz Ignácio Lula da Silva, concentraram-se mais na exigência de
cassação dos mandatos dos senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto
Arruda, acusados de violar o painel eletrônico de votações do Senado
Federal, e de Jáder Barbalho, supostamente envolvido em desvios de verbas
da Sudam. Para atrair público, a CUT também contratou estrelas do showbizz
e grupos musicais, como os cantores Daniel, Claudinho & Buchecha e a banda
Fundo de Quintal.

O show da Força Sindical foi prestigiado pela presença do ministro do
Trabalho, Francisco Dornelles, que recentemente contou com o apoio da
organização para aprovar o plano do governo federal de pagar os expurgos do
Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em parcelas, com deságios e
aumentos na contribuição dos patrões, à revelia da Central Única dos
Trabalhadores (CUT) e das principais organizações empresariais. Durante o
evento, a Força começou a coletar assinaturas num abaixo-assinado que será
enviado ao Congresso, pedindo a redução da jornada de trabalho para 40
horas semanais.

No evento da CUT, quem assinava o pedido de cassação de ACM e Arruda
recebia três bolinhas, subscritas com as palavras "ética", "democracia" e
"transparência", para atirar num painel com fotografias de ACM, Arruda,
Barbalho, Maluf, Fernando Henrique e Malan.

Comparados com as manifestações ocorridas na Argentina, os atos do Primeiro
de Maio no Brasil, a despeito das futilidades, até que tiveram algum peso.
Na Argentina, a CGT, uma das grandes centrais sindicais, limitou-se a
distribuir gratuitamente três mil pacotes de livros tratando de assuntos
trabalhistas aos visitantes do estande que montou na Feira do Livro, em
Buenos Aires. Além dos minúsculos atos organizados por pequenos partidos de
esquerda, as manifestações mais vigorosas em favor dos direitos dos
trabalhadores e contra o desemprego, partiram da Conferência Episcopal.
Segundo o jornal El Clarín, os bispos católicos pronunciaram, em missas
rezadas por todo o país, "homilias duríssimas contra o modelo econômico".

Comparados, porém, com a manifestação de Havana, o Primeiro de Maio no
Brasil demonstrou, como na Argentina, que os trabalhadores não estão
suficientemente mobilizados para enfrentar os desafios da atual conjuntura.
O sucesso do mega-evento da Força Sindical no Campo de Bagatelle,
patrocinado pela Telefônica e a Brahma, ocorreu porque há muita gente
disposta a arriscar a sorte para ganhar um carro ou um apartamento, ainda
mais sem pagar nada. Já o peso menor do ato da CUT, no Vale do Anhangabaú,
deveu-se ao fato de ter sido mais politizado. Ainda assim, ficou reduzido
ao combate à corrupção, uma bandeira evidentemente precária para quem
pretende mudar o mundo e fundar um outro tipo de sociedade, como queriam os
oito mártires de Chicago, os operários grevistas condenados à pena de
morte, que inspiraram a origem do Primeiro de Maio.

 Néstor Miguel Gorojovsky gorojovsky at arnet.com.ar

Louis Proyect
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